Adaptação da NR1 é oportunidade para revisar práticas de gestão e fortalecer ambientes de trabalho

A atualização da NR-1 colocou a saúde mental no centro da gestão de riscos ocupacionais e passou a exigir que as empresas identifiquem, avaliem e controlem fatores psicossociais relacionados ao trabalho. Embora a medida tenha entrado em vigor em caráter educativo e orientativo, a norma representa uma mudança estrutural na forma como as organizações lidam com temas como estresse, assédio moral, sobrecarga de trabalho, metas excessivas e falhas na organização das atividades. 

Especialista em direito do trabalho, a advogada Glauce Fonçatti, do Escritório Batistute Advogados, ressalta que, para as empresas que ainda estão em fase de adaptação, o primeiro passo é compreender que a exigência não se resume à oferta de benefícios ou campanhas de bem-estar. “A nova redação da norma determina que os riscos psicossociais sejam incorporados ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e registrados nos processos formais de prevenção, ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos já previstos na legislação” orienta. 

Na prática, isso significa mapear fatores que possam contribuir para o adoecimento mental dos trabalhadores. “Entre os exemplos citados estão jornadas excessivas, pressão constante por resultados, assédio, baixa autonomia, comunicação deficiente, conflitos interpessoais e desequilíbrio entre esforço e reconhecimento profissional”, aponta a especialista. Glauce defende que o processo de adequação comece com um diagnóstico estruturado do ambiente organizacional. Pesquisas internas, entrevistas, análise de indicadores de absenteísmo, turnover, afastamentos e canais de denúncia podem ajudar a identificar os principais pontos de atenção. “A partir desse levantamento, as empresas devem elaborar planos de ação com medidas concretas, responsáveis definidos e acompanhamento periódico dos resultados.”

Outro ponto importante é o engajamento das lideranças. “A nova abordagem da NR-1 reforça que muitos riscos psicossociais estão relacionados à forma como o trabalho é organizado e gerenciado. Por isso, treinamentos para gestores, revisão de metas, fortalecimento dos canais de escuta e políticas de prevenção ao assédio tendem a ganhar protagonismo nos programas de saúde e segurança corporativa”, sugere a advogada. 

O período de adaptação e orientação antes da intensificação das fiscalizações, serve justamente para permitir que empresas de diferentes portes ajustem seus processos. Ainda assim, a especialistas alerta que adiar as adequações pode aumentar riscos trabalhistas, previdenciários e financeiros, especialmente em um cenário de crescimento dos afastamentos relacionados à saúde mental. 

“Mais do que atender uma obrigação regulatória, a adequação à NR-1 pode representar uma oportunidade para revisar práticas de gestão e fortalecer ambientes de trabalho mais saudáveis. A tendência é que organizações que tratem a saúde mental como parte estratégica da gestão de pessoas estejam mais preparadas para reduzir afastamentos, aumentar o engajamento das equipes e construir relações de trabalho mais sustentáveis”, complementa Glauce.

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